Antídoto ao racismo

O olhar, a palavra dita ou escrita, expressa o que fomos, somos,

pedimos ou o que queremos. Diariamente, renovamos esperança por atitudes melhores, mas… As ações humanas têm o potencial de alimentar ou interromper sonhos.

A morte do americano George Floyd choca pela visão distante da cena e aterroriza pela captação da energia destrutiva, repudiante, nauseante e covarde dos policiais. A vítima rendida, policial comprimindo seu pescoço até asfixiá-lo e outro policial a poucos metros inerte, acobertando a covardia.

A interrupção do fluxo sanguíneo para o cérebro e a compressão da via aérea são as causas de morte do americano, travestidas de PRECONCEITO RACIAL.

O olhar da vítima e as últimas palavras comovem, angustiam por imaginar que o preconceito não acabará. A morte do brasileiro, João Pedro Matos Pinto, dentro de sua casa, ao lado de familiares, sem apreensão de criminosos ou evidência de crimes, levanta discussão sobre morte de jovens negros no país, causados pela discriminação social e expõe a fragilidade de quem vive na periferia. Lamentável e também revoltante.

Já senti o peso do racismo em diferentes circunstâncias ao longo dos meus 44 anos. Na infância foi frequente, mas não deixou de existir na adolescência e vida adulta de forma dissimulada ou transparente. Hoje é menor, mas a consciência de sua existência é maior, o que amplia a responsabilidade em ajudar a combatê-lo.

De forma sutil, ele degrada a autoestima, ceifa oportunidades, castra sonhos, promove mal-estar e cria “fantasmas” na mente de quem sofre ou sofreu; ainda que vários dos meus convivas, presentes ou passados, neguem que isso acontece ou aconteceu.

A negação reduz a importância da discussão e impede a sua extirpação. Atrelar o preconceito racial à condição econômica das vítimas é minimizar uma demanda gigantesca. Negros, mais que pardos e brancos, são expostos a violência urbana e representam o maior percentual de mortos nas estatísticas de homicídios em diferentes regiões do mundo.

Com o tempo, aprendemos a driblar situações vexatórias ou criamos barreiras supostamente intransponíveis. A resposta, ao insulto, pode vir de forma pacífica com reivindicações pela criação e aplicação de leis de combate ao racismo ou de forma violenta, com protestos que misturam interesses

políticos, religiosos, econômicos e étnicos. O filtro de quem debate ou discute precisa de muito apuro para permitir que as melhores ideias surjam em busca do melhor para todos, sem exclusão de qualquer natureza. Empatia e altruísmo

são comportamentos valiosos para o crescimento de uma sociedade. O interesse coletivo deve prevalecer sobre o individual.

Diferenciar o homem por cor da pele é segregar a raça humana, permitindo manipulações e manutenção de disparidades. O tempo da escravidão passou, mas a dicotomia casa grande e senzala ainda reverberam. Somos humanos, somos semelhantes expostos aos mesmos desafios do cotidiano. Todos têm direitos e deveres.

O desabafo, NÃO É PARA VITIMISMO, é para que cada um dos pais que leem e ouvem esses levantes, reflitam sobre o tema. Tragam essas demandas humanas para dentro de suas casas, mentalizem que o preconceito é uma cicatriz invisível, profunda, dolorosa e infeliz. Ao longo do tempo, a trilha me impulsiona a levantar boas bandeiras e buscar alternativas por vezes difíceis, mas que trarão bons frutos aliviando o peso da carga.

A realidade deve ser crua, franca e transparente. Camuflar, o existente, impede a resolução. Cada pai e mãe, que ama os seus e a vida, deve abordar o tema com seus filhos. Preconceito é FALTA DE EDUCAÇÃO, instalado em todos os lares.

O antídoto é a orientação FAMILIAR. O negro precisa de RESPEITO em todas as etapas da vida. Cidadania e justiça é o que queremos.

O papel do estado é garantir o exercício desses direitos.

(Opinião enviada por José Armando de Oliveira Filho – Médico – cirurgião vascular, NEGRO E PAI). Instagram: @josearmandovascular

2 pensou em “Antídoto ao racismo

  1. Obrigado pela publicação dessa opinião franca! Uma pauta sempre presente.

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